Estar na moda.

Aprecio um detalhe referente aos nossos costumes hoje em dia: de alguma forma, temos uma certa folga quando se trata de estilos, jeito de ser e, em especial, sobre o tipo de roupa que escolho para compor meu guarda-roupa.

É como se hoje, tudo fosse moda.

Tudo está no auge.

Eu, mulher, posso usar vestidinho, calça, shortes, bermudas, camiseta. Posso pôr um terninho até. Ou mesmo uma gravata.

Tudo está em uso.

E o bom é que não preciso me escravizar para obedecer aos apelos da mídia, embora ela exerça sobre mim com bastante força várias alternativas.

Tomara que não só aparentemente eu esteja vivenciando minha autonomia para escolher pelo menos o que visto ou o que calço.

Camila sempre me diz: você contesta tanto a moda imposta pela mídia e vive vestindo coisas do auge, da temporada.

Eu respondo rindo que, ao ir “escolher” uma roupinha nova, vi na vitrine algo de que gostei. E, gostando, comprei. E, ao comprar, acabei levando para casa algo que, coincidentemente, está na moda.

Há controvérsias acerca de se “estar na moda.”

Quando um ocidental usa terno e gravata ele está na moda. Então isso é construído culturalmente? Sim!

Mas o que eu critico – e não posso me calar quanto a isso – é a nossa obediência ao que nos é imposto todos os dias, como se fôssemos verdadeiras marionetes programados para dizer “sim” aos ditames das grandes grifes, às vitrines de um capitalismo perverso que não se importa se eu tenho ou não dinheiro ou condições de comprar aquele novo modelito.

Eu reclamo da carestia. Brigo quando querem me vender peças que, em termos de qualidade, valem tanto quanto outras que podem ser encontradas no mercado cinco vezes mais barato. Às vezes (acredite!) até dez ou vinte vezes mais barato.

Não compreendo como pessoas que trabalham por um salário mínimo conseguem manter cabides impecavelmente caros em detrimento de sua própria saúde e/ou alimentação de qualidade.

Quanta incoerência!

Os egípcios, por exemplo, usavam basicamente o mesmo tipo de roupa. Mas, para se diferenciarem uns dos outros, e para marcarem a diferença entre as classes sociais, eles criaram detalhes, aumentaram os adornos e acessórios como jóias e amuleto.

Então deve ser por isso que o povo se prejudica, mas tem que usar o que a atriz da novela das oito usou no último capítulo, custe o que custar.

Quanto a mim, “não vou me adaptar!”. Não mesmo!

El mundo de la moda es un poco la tiranía.

Gosto dos textos do nosso maior poeta Carlos Drumond.

De forma muito particular, gosto de “Eu, Etiqueta” onde ele faz referência às coisas que usamos que não contém nosso nome, não expressam nossos desejos, não dizem respeito ou fazem qualquer referência a quem sou, embora toda a mídia afirme o tempo inteiro que sim, que o que uso pontua caracteres sobre minha personalidade, meu jeito de ser e coisas assim.

Para nosso deleite, o texto de Drummond:

Eu, Etiqueta

Em minha calça está grudado um nome

que não é meu de batismo ou de cartório,

um nome… estranho.

Meu blusão traz lembrete de bebida

que jamais pus na boca, nesta vida.

Em minha camiseta, a marca de cigarro

que não fumo, até hoje não fumei.

Minhas meias falam de produto

que nunca experimentei

mas são comunicados a meus pés.

Meu tênis é proclama colorido

de alguma coisa não provada

por este provador de longa idade.

Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,

minha gravata e cinto e escova e pente,

meu copo, minha xícara,

minha toalha de banho e sabonete,

meu isso, meu aquilo,

desde a cabeça ao bico dos sapatos,

são mensagens,

letras falantes,

gritos visuais,

ordens de uso, abuso, reincidência,

costume, hábito, premência,

indisponibilidade,

e fazem de mim homem-anúncio intinerante,

escravo da matéria anunciada.

Estou, estou na moda.

É doce estar na moda, ainda que a moda

seja negar minha identidade,

trocá-la por mil, açambarcando

todas as marcas registradas,

todos os logotipos do mercado.

Com que inocência demito-me de ser

eu que antes era e nem sabia

tão diversos de outros, tão mim-mesmo,

ser pensante, sentinte e solitário.

Com outros seres diversos e conscientes

de sua humana, invencível condição.

Agora sou anúncio,

ora vulgar ora bizarro,

em língua nacional ou em qualquer língua

(qualquer, principalmente).

E nisto me comprazo, tiro glória

de minha anulação.

Não sou – vê lá – anúncio contratado.

Eu é que mimosamente pago

para anunciar, para vender

em bares festas praias pérgulas piscinas,

e bem à vista exibo esta etiqueta

global no corpo que desiste

de ser veste e sandália de uma essência

tão viva, independente,

que moda ou suborno algum a compromete.

Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher,

minhas idiossincrasias tão pessoais,

tão minhas que no rosto se espelhavam,

e cada gesto, cada olhar,

cada vinco da roupa

resumia uma estética?

Hoje sou costurado, sou tecido,

sou gravado de forma universal,

saio da estamparia, não de casa,

da vitrine me tiram, recolocam,

objeto pulsante mas objeto

que se oferece como signo de outros

objetos estáticos, tarifados.

Por me ostentar assim, tão orgulhoso

de ser não eu, mas artigo industrial,

peço que meu nome retifiquem.

Já não me convém o título de homem,

meu nome novo é coisa.

Eu sou a coisa, coisamente.

…………………………………………..

Obrigada, Drummond, pela força!

Referência:

Carlos Drummond de Andrade, O Corpo. Eu, Etiqueta. Rio de Janeiro, Record, 1984, p. 85-87.
Arnaldo Antunes. Não vou me adaptar. Grupo Titãs.

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