Ver o mundo em cores

Valho-me das comemorações sobre o dia das Crianças para iniciar meu texto para esta edição de outubro sob forma de conto. Um conto em primeira pessoa. Varriam minhas memórias alguns dos episódios mais felizes da minha vida, como um exercício de autoanálise e “tim-bum!”, veio a história de nossa primeira televisão colorida.

Nosso acesso, até então, à cultura mundial era através das imagens em preto e branco de nossa velha e grande TV. Todas as imagens eram pretas, brancas e cinzas. Cinza claro, cinza escuro, cinza muito claro e outros tons de cinza, mas tudo – tudinho mesmo – cinza. Era o mundo, sim, mas havia algo diferente da vida real. Faltava-lhe algo.

Um dia, subitamente, papai chegou em casa com uma grande caixa contendo nossa primeira Televisão a cores. Nós descemos a ladeira de onde morávamos correndo, para contar à nossa mãe o grande presente que tínhamos ganhado. Quanta alegria ao saber que, a partir de agora, as imagens seriam coloridas. Nós, definitivamente, não tínhamos muita noção de quão belas seriam, a partir de agora, as imagens desfrutadas por nós, mas posso indicar aquele como um dos melhores dias de minha vida infante. Não pelo sinal de ascensão social que aquilo significava, mas pelo simples prazer de saber que teríamos histórias mais enriquecidas e belas. Dentro de nossa própria casa.

Outro dia Marcos, meu irmão, reclamava que tínhamos de ter lido mais livros na infância. Pontuei que sim, mas nossa leitura visual também não fora tão empobrecida, tendo em vista os programas educativos que, ingenuamente, escolhíamos. Preferíamos, por exemplo, a qualquer outro programa, as velhas e boas edições do Sítio do Pica-pau Amarelo. Aquelas ‘leituras’ nos faziam viajar longe, muito longe, à países, linguagens, culturas mil. Era bom. Serviram para nos instigarem, para nos fazer ir um pouco além. Conhecer, por exemplo, o Minotauro; as histórias da antiga Pérsia sobre o grande Califa, o Grao-vizir; a invenção das cores em tecidos; os camelos do ocidente… tudo aquilo nos embevecia e nos enriquecia sobremaneira. Eram como nossos primeiros passos diante da estética, do belo, da aventura do conhecimento. Era um outro mundo real e fictício, imaginário.

Hoje nossa visão de TV recebe roupas de criticidade e já sabemos que, de um modo geral, tudo o que vemos ou ouvimos precisa passar pelo crivo da consciência, da maturidade intelectual. Não se trata de desconfiar de tudo de um modo patológico, mas buscar compreender os diferentes pontos de vista, deixando de lado a visão ingênua e infantil de crer em tudo o que se fala na grande mídia. Nossa leitura já ultrapassa a telinha, vai um pouco além do que se quer nos impor, mas o vínculo primário com o que é belo, com o que nos faz transcender está estabelecido.

Há um humorista inglês que diz que considera a TV um dos maiores instrumentos de educação. Enquanto alguém liga o aparelho na sala ele se retira para outro ambiente. Isso vale, sim, para a maioria dos programas atuais, incluindo aí a maioria dos programas de jornalismo rápidos e tendenciosos.

Independente da mídia, queremos para nós e nossa futura geração – e também para nossa própria geração – gente que pense, que reinvente o mundo a partir do que já temos,com criatividade, criticidade, maturidade, beleza e alegria.

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