Dorme, dorme, Delecher…

Dorme, dorme, Delechér…

Já se observou que as músicas brasileiras para ninar bebês estão carregadas de conteúdos que estimulam a timidez, o medo, a insegurança.

Não à toa as pessoas tem insônia, dificuldade para dormir. Letras como: “dorme, neném, que a Cuca vai pegar” faz a criança pensar que se não dormir logo será ameaçada por aquele personagem horrível e amedrontador do Monteiro Lobato. Outra musiquinha também curiosa é: “boi, boi, boi, boi da cara preta, vem pegar fulano que tem medo de careta.” As melodias são realmente calmantes, belas, harmoniosas. Mas a mensagem da letra não é das melhoras se a gente quer que a criança dorma um sono tranquilo, sem pesadelos, sem medo.

Há crianças que dormem com os pais. Nada melhor para expressar amor dos pais, já que é a noite que eles estão descansados, na cama quentinha, desfrutando do amor, do abraço e do aconchego paterno. Certo? Não exatamente. Isso porque os pais acabam permitindo que os pequenos durmam no mesmo quarto deles toda a noite, incluindo a presença na hora do ‘namoro’. Os pais pensam: “mas nossos filhos estão dormindo, não vão ver o ato sexual!” Mais um engano. Os filhos ficam normalmente à espreita, fingindo dormirem. Em sua remota formação psíquica os pequenos entendem que os gemidos da mãe são de dor e que o pai está machucando a mãe. Sendo assim, a criança conclui: “vou ficar acordada para tentar impedir meu pai de machucar minha mãe.”

Esse momento define, dentre outros fatores, que aquela criança poderá ter insônia o resto da vida, sem saber o porquê. Vale relembrar que o inconsciente registra esses momentos para sempre e que a insônia voluntária pode resultar em involuntária. Ou seja: você até tenta dormir, mas não consegue.

Em outras palavras, nós geralmente criamos nossos filhos dando-lhes tudo de bom, todo nosso cuidado, nosso amor, aconchego. Isso, de modo geral, é um fato. Nos esforçamos para que nossa prole tenha estabilidade emocional, sucesso profissional e pessoal. Que tenha uma bonita história de vida. Quem não quer ver sua própria cria tendo êxito em todos os aspectos existenciais? O problema é que, desavisados, cometemos equívocos que comprometerão o futuro mentalmente saudável dos pequenos.

Dormir, para muitos, não é uma fácil tarefa. Por isso a industria farmacêutica tem crescido nos últimos tempos, nos entupindo de remédios, relaxantes, anti-depressivos. São os psicofármacos tão conhecidos por esse século que embora já consiga tirar fotografias de alta resolução em Marte, ainda não conseguiu reconciliar-se com seu próprio sono. Com o seu próprio eu. O sono artificial não se aproxima do sono natural, tanto quanto uma boa dentadura não se iguala aos nossos dentes próprios.

O sono está além do conceito de descanso ou de servir simplesmente para repor as energias gastas durante o dia. O sono vale para a preservação da saúde. É o momento da reorganização da mente. Isso porque um sono tranquilo, noturno e reparador fortalece as defesas do organismo que, além de outros benefícios, facilitará a aprendizagem e a criatividade. Costumo dizer que o sono é nosso espaço íntimo de encontro conosco mesmo. É o lugar onde nossas fantasias ocorrem, alimentando nossa capacidade de ter melhor qualidade de vida, de resolução dos nossos íntimos desejos, gerador de saúde mental. Isso equivale a dizer que dormir não é perda de tempo. Definitivamente, não.

E agora? O que faço para melhorar meu sono? O autor Weisinger, em seu livro Inteligência Emocional no Trabalho nos dá algumas dicas sobre diminuir o nível de excitação. E quanto mais excitado estiver seu corpo e sua mente, mais dificuldade você terá para dormir. Ele nos convida a evocar boas e prazerosas imagens; a condicionar-se a relaxar. Isso pode parecer difícil, mas é possível melhorar o nível de respiração, tentar relaxar o corpo. D. Branca, uma velha amiga nossa, diz sempre que problemas não se leva para a cama. Dizem os antigos que um velho e bom chazinho de camomila, de erva-cidreira, de capim santo, também resolvem. Vale a pena cuidar da higiene do sono, evitando atividades físicas duas horas antes de dormir, já diziam os Psiquiatras. O pensamento de que amanhã será outro e novo dia, cheio de novas expectativas e possibilidades também pode ajudar.

Dormir, para nossa saúde mental, deve ser tão importante e privilegiado por nós quanto o alimento diário, beber água, exercitar-se, ter pessoas que amamos por perto etc. Dormir precisa ser um ítem indispensável em nossa agenda. Inadiável. Para nosso próprio bem, para o bem daqueles que passam por nós. Isso sem falar na importância dos sonhos, dos quais falaremos em outra oportunidade.

Por outro lado, há pessoas que dormem demais. O sono patológico deverá ser investigado também por profissional competente. Dormir demais pode ser indício de depressão, de alguma irregularidade na saúde.

De qualquer forma, ainda reverbera em nossa mente infantil aquelas ameaças de que vamos ser devorados pela Cuca ou pelo boi-da-cara-preta. A noite, para muitos, ainda é sinônimo de tristeza, de angústia, de insegurança. Alguém poderia responder o porquê? Drummond vem a nosso socorro pontuado que “No meio do caminho tinha uma pedra.”

Vai ver que nas saudosas cantigas da roça estejam um importante princípio da sabedoria paterna: “Dorme! dorme! Delechér, dorme, dorme! Delechér não quer dormir? Dorme, dorme.” Simples assim: sem ameaças, sem afrontas, oferecendo à criança o maior conforto emocional, amparo do bom, seguro de inesquecível colinho de mãe ou de pai. Ou de quem de verdade ama.

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