Ao meu irmão caçula

INDIVISÍVEIS

“O meu primeiro amor sentávamos numa pedra
que havia num terreno baldio entre as nossas casas.
Falávamos de coisa bobas, isto é, que a gente grande achava bobas
como qualquer troca de confidência entre crianças de cinco anos.
Crianças…
Parecia que entre um e outro nem havia ainda separação de sexos
a não ser o azul do imenso olhos dela,
olhos que eu não encontrava em ninguém mais,
nem no cachorro e no gato da casa,
que apenas tinham a mesma felicidade sem compromisso
e a mesma animal – ou celestial – inocência,
porque o azul dos olhos dela tornava mais o azul do céu:
não importava as coisas bobas que disséssemos.

Éramos um desejo de estar perto, tão perto
que não havia ali apenas duas encantadas criaturas
mas um único amor sentado sobre uma tosca pedra,
enquanto a gente passava, caçoava , ria-se, não sabia
que eles levariam procurando uma coisa assim por toda a vida…”
(autor desconhecido)

Há trinta e quatro anos eu ganhei um dos maiores presentes de toda a minha vida. E eu ainda era um bebê de um ano e dois meses. Nasceu meu irmão caçula.

Sempre falo às pessoas que ter irmãos é uma das experiências mais emocionantes da vida. Sempre observo os filhos únicos e confesso que morro de pena deles.

Ter irmão significa aprender a dividir o que se tem, a ter para quem contar segredos, com quem desfrutar a vida quando as coisas vão bem ou mal.

Eu sou particularmente muito feliz por ter irmãos.

Eles são minha âncora, meu norte; meus conselheiros.

No mínimo são pessoas que compartilham comigo dos mesmos pais, o mesmo plasma, o mesma cultura inicial.

São pérolas raras que inundam minha alma apenas por existirem.

Um sorriso deles modifica meu dia e me motiva a caminhar adiante.

E eles também possuem este mesmo sentimento em relação a mim. Tenho certeza disso.

Mas eu estava falando de meu irmão Marcos.

Meu companheiro de alma, meu grande e melhor amigo. Meu menino, meu caçulinha que faz aniversário hoje…

Eu não seria capaz de escrever plenamente tudo o que ele significa para mim. Só sei que é algo bom o suficiente para ser impossível pensar nele sem ter nos lábios um sorriso “desse tamanho assim” (ele sabe que meus braços – ainda infantes – estão abertos de lado a outro para tentar demonstrar essa medida).

As primeiras experiências, o medo do escuro mesmo quando já somos grandes, os primeiros grandes motivos para sorrir e até para chorar, toda a minha vida está diretamente ligada a Marcos.

Há tão pouco tempo eu e ele, já adultos – ele, já casado – estávamos dormindo na cama de nossos pais e eu lhe falei que tenho bruxismo. Todo mundo sabe que bruxismo é um problema que faz com que as pessoas fiquem rangendo os dentes enquanto dormem. No meu caso eu mordo a bochecha. Mas ele, tão inteligente e conhecedor da filosofia mundial não sabia o que era aquilo. Estávamos no escuro e, a partir do momento em que eu pronunciei a maldita palavra, ele teve um medo tão grande… me abraçava… e pedia que eu acendesse a luz. E eu também fui acometida de um medo tão incrível que começamos a suar… a sorrir… levantamos juntos, abraçados, ligamos a luz e dormimos em paz outra vez.

E já éramos adultos. Imaginem o que vivemos na infância?

Outro dia, na infância, ele me disse que a pessoa sabia que havia morrido quando, ao cair no chão, falasse: “morri.” E eu acreditei naquilo. Ele também acreditou.

Então quando um batia no outro, se qualquer um de nós tivéssemos a idéia de cair ao chão, fechar os olhos e confessar: “morri”, já havíamos morrido. O outro assim, o que estava vivo, chorava muito, se descabelava mesmo, chamava nossa mãe, fazia um rebuliço imenso… Quanto sofrimento! Até que o “morto” sorria e então a alegria voltava. Não sem um grande murro nas costas do mentiroso.

Eu ficaria horas e horas sorrindo e contando o quanto esse lindo homem representa para mim. E seria um imenso prazer me lembrar das pedradas que eu dava em sua cabeça quando ele me pirraçava; das suas mentiras para mim; dos sorrisos que provocávamos um no outro… De nossa eterna cumplicidade, do nosso encantamento, do nosso grande amor.

Eu não seria o que sou sem ele, definitivamente.

Obs.: Na foto estamos eu e Joe. Dizem que aprendemos a amar em casa, não é? Que sorte a minha que Joe se pareça tanto com meu irmão caçula. Rs.

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