Ainda na infância


Tenho pena de quem nunca teve um irmãozinho ou irmãzinha com quem tenha brigado muito, aos tapas mesmo, e depois de tudo, tenha feito as pazes sob a orientação da mamãe.

Tenho pena de quem sempre teve tudo nas mãos e ainda hoje pensa que a vida deve ser segundo a sua própria vontade.

Admiro quem não teve carrinhos ou bonecas e precisou, para brincar, construir seus próprios brinquedinhos com paus e latas usadas.

Para mim é fundamental que se tenha, na infância, brincado muito com os pés no chão, descalços, para aprender que aquilo dói, mas é delicioso.

Subir em árvores, também.

Ir para casa comer ovo frito quando na casa da vizinha se viu bolos e quitutes deliciosos. Substituir alimentos também faz parte da aprendizagem da vida. Especialmente quando não se tem dinheiro suficiente.

Perceber, ainda pequena, que não preciso ficar revoltada se minha priminha, que tinha um pai cacauicultor, tem dois sacos de balas cheinhos cheinhos enquanto eu ganhei apenas duas das balas. Entender a desigualdade social desde pequena, com olhares ainda infantis, era necessário.

Acima de tudo compreender que há graça na existência, ainda que tudo me vá mal.

Porque viver bem era e sempre foi preciso.

Foto: fonte

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