A gente se desumaniza…

Se a gente acorda cedinho num dia como hoje, chuvoso, e nem se dá conta de que há alguém necessitando trabalhar e tem dificuldade de se locomover enquanto estou confortavelmente em meu carro, ouvindo música espanhola.
Se as desigualdades sociais são compreendidas por mim como uma fatalidade ou, pior, naturalidade e fruto da preguiça dos empobrecidos.
Se eu não percebo que os sistemas políticos e econômicos mundiais são cruéis e favorecem quase sempre apenas a alguns ricos em detrimento da maioria.
Se eu deixo escorrer pelas mãos a maior oportunidade para mudar de vida.
Se o sorriso de uma criança não me fragiliza ou se eu não fico sentida quando ela dança em sérios movimento sensualizados, ensinados por nossa mídia perversa.
Quando eu me limito a gostar das propagandas brasileiras sem questionar o apelo ao consumo que desmerece as reais condições sócio-econômicas da maioria de nossa população e a impele, em linhas gerais a um estado de insatisfação com o que ela própria é e possui, gerando desigualdades, ansiedade e violência.
Eu me desumanizo quando cometo ou permito cometerem preconceitos de qualquer sorte – inclusive o lingüístico. Os ricos do Brasil em geral não possui vasta cultura acadêmica, não conseguem valorizar a boa música, não extrapolam as imposições globais da mídia mundial mas pensam que sim. Resultado: a maioria dos preconceitos liguísticos é cometida contra pobres, empregadas domésticas, trabalhadores rurais, catadores de material reciclável. E eu ainda sorrio de sua culturalidade. (Marcos Bagno deveria ser conhecido por estes. Quiçá por nós todos).
Eu me torno menos pessoa quando julgo as pessoas pela sua roupa ou cor da pele. Por sua religião, por seu estilo de vida. Quando pre-conceituo comportamento e não compreendo as pessoas.
Quando nego um conselho que direcione em nome da lei que é feita em salas e móveis confortáveis e não leva em conta particularidades regionais ou específicas de muitas comunidades e/ou indivíduos.
Quando opto pela facilidade embora saiba que nem sempre o imediatismo resultará em benefícios para outros que estão à minha volta. Ou não percebo que, a longo prazo, nem mesmo para mim ele será necessariamente proveitoso.
Eu deixo de ser gente quando fecho os braços para quem precisa de mim. Mesmo homem grande. Mesmo menino pequeno. Mesmo o idoso carente. Mesmo a viúva ou o órfão.
Quando não olho nos olhos das pessoas e tenho mil desculpas para evitar-lhes.
Quando não peço perdão mesmo sabendo que eu provoquei a dor do outro.
Se não amo.
Se não sou gente.
Se não busco a minha própria humanidade.

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