Consumo x Meio Ambiente

consumismo

A menina está com muitas roupas novas em seu guarda roupa, mas insiste em correr às lojas para comprar um novo vestido, afinal de contas hoje terá uma festa e ela entende que precisa desfilar com um novo modelito.

Nada contra a vaidade feminina. Nada contra a pessoa desejar sentir-se bela.

O problema é que o meio ambiente não suporta mais a nossa mania de comprar, a nossa compulsão por jogar fora coisas que ainda poderiam ser usadas e comprar novas que daqui a pouco já estarão velhas – segundo esse frágil raciocínio de que não posso repetir peças que já usei.

E é assim em tudo.

Nosso celular, que compramos ontem, já não nos atende mais e queremos o último, da última geração, que tem um movo aplicativo, um outro jeito, uma nova cor.

Na roupa, nos sapatos, na música que ouvimos, no carro, na moto, na bicicleta, nos móveis da casa… Todo dia, toda hora, desejamos ir à rua atender ao chamado da propaganda, da mídia, da TV e do rádio: “você tem que comprar essa novidade!”.

Alguém nos falou que quanto mais bugiganga tivéssemos, mais felizes seríamos. E aprendemos equivocadamente que vale a pena aparentar poder socialmente, ainda que em meu bolso eu não tenha nem um real.

Estamos numa época em que é comum comprarmos carros mais caros, parcelados em várias vezes que pagamos com muita dificuldade ou sacrificando a mesa, só pelo simples fato de que o carro seria minha mais potente prova de que estou bem.

Hoje em dia vale, infelizmente, o que você tem acima do que você é. Ser e ter encontram-se em crise. Além disso, quando não bastasse, queremos ‘parecer ter’. Ainda que não seja verdade, insistimos em demonstrar que somos ricos, bonitos, jovens… que somos felizes e bem sucedidos.

Tudo em nome de um consumismo desenfreado que nos agride como pessoas, fere nosso bolso, compromete nossa economia familiar e ainda prejudica imensamente a natureza, pois o meio ambiente não suporta mais tantos gastos, tanto uso inadequado, tanta exploração dos recursos naturais.

Seguimos um caminho desenfreado rumo ao consumo, rumo à destruição do nosso querido planeta Terra.

Consumir demais afeta o meio ambiente, afeta nossa casa, afeta nossas relações com os outros, afeta as gerações futuras.

Pensemos com responsabilidade sobre como temos nos situado no mundo, sobre qual o nosso papel como pessoas humanas na construção de um mundo melhor em que possamos viver dignamente, usando com sabedoria os recursos que estão à nossa disposição.

MADRASTA

madrasta

Desde pequenos somos acostumados a entender que madrastas são pessoas más.

Pelo Aurélio, madrasta é adjetivo de mulher pouco carinhosa, que maltrata filhos do anterior relacionamento do marido.

As famosas histórias infantis da Cinderela, de João e Maria, da Branca de Neve, contadas pelos  Irmãos Grimm, dão conta desta figura enigmática, ameaçadora, malvada, capaz das maiores atrocidades possíveis contra crianças: a madrasta.

Dizem que se madrasta fosse uma boa figura, ela se chamaria “boa-drasta”, não “má-drasta”.

Na vida real, cá entre nós, temos aqui ou ali algumas histórias muito tristes, que chocam a sociedade.

Crianças que são maltratadas e até mortas e, quando se investiga melhor o caso, lá está ela, a madrasta: envolvida, julgada, condenada como culpada. Os casos da pequena Isabela e do menino Bernardo nos assombram, nos amedrontam.

Diante disso, perguntamos:

  • Seria possível haver uma relação de amor entre crianças e madrasta?
  • É possível que as duas possam conviver pelo menos pacificamente, respeitando cada uma o espaço e os desejos da outra?
  • Qual o papel do pai no andamento dessa relação?
  • Todo vínculo entre madrastas e enteados será sempre conflituoso?

A primeira questão que eu gostaria de pontuar é que toda e qualquer relação pode ser transformada em um vínculo de amor, de diálogo, de tolerância.

Além disso, os adultos da relação, pais, mães e madrastas ou até padrastos, devem se posicionar como pessoas maduras que serão responsáveis pela saúde emocional dos filhos e se esforçar para que o convívio entre todos seja o mais leve e respeitoso possível.

A madrasta que ama seu marido entenderá que se buscar a paz com os filhos do marido estará provando seu amor por seu companheiro: É natural que os pais gostem e se sintam gratos a quem trate bem seus filhos.

Ela deverá compreender que ela não é mãe dos filhos do marido e se posicionar como alguém que apenas acolhe, ouve, respeita e convive (se for o caso) com eles. Se for necessário definir limites, que seja feito em conversa com toda a família, para que ela, a madrasta, não se sinta menosprezada, humilhada e preterida na relação familiar.

A madrasta que se gosta e se conhece, que tem uma boa autoestima, não se sentirá ameaçada pelos filhos da outra, pois ela entende que seu marido a ama.

A madrasta sábia e madura entenderá que o amor do companheiro por ela é diferente do amor dele por seus filhos e estimulará seu parceiro a ser bom pai.

Vale ressaltar que amor de pai é um e amor de esposo é outro. Amores diferentes para pessoas diferentes. E um tipo de amor não anula o outro.

O pai poderá desempenhar o papel do homem conciliador. Do homem que busca compreender os sentimentos conflituosos que porventura surjam e consiga acolher tanto sua companheira quanto seus filhos, tendo o cuidado de não jogar um contra o outro.

Essas pequenas e rápidas dicas passam necessariamente pela nossa capacidade de ser gente, de ser humano.

Se eu posso ser uma pessoa melhor dentro de meu lar e construí-lo como um lugar de paz e de harmonia, se isso estiver em minhas mãos, é o que deverei fazer.

Mito da Grama Verde

inveja

Você acorda de manhã, descabelada, e vê sua vizinha toda arrumada, indo para o trabalho de carro com seu marido alto, bonito e forte.

 

Você sente inveja daquilo tudo e ainda percebe que os filhos da vizinha são belos e saudáveis, que tudo por lá parece funcionar adequadamente e que a grama do jardim da casa da vizinha está sempre aparada, renovada e verde.

 

A casa do vizinho é invejável. A sua, não.

 

Você valoriza cada detalhe de lá. Da sua casa, não.

 

Você dá valor e alto preço a tudo o que acontece e parece acontecer (principalmente parece acontecer) por lá e, nesse exercício de incapacidade de olhar para si mesma, você não consegue perceber quanta riqueza, quanta potencialidade há em suas mãos, em seu próprio interior, em sua própria casa.

 

Você se esquece de ver as coisas boas de você mesma.

 

A vida dos outros parece ser a vida mais fácil de ser vivida.

 

E você tem dificuldade de compreender as lutas, os dessabores e o esforço que os donos da casa ao lado fazem para manter tudo, pelo menos aparentemente, em dia.

 

O que é difícil perceber, neste contexto, é que a casa ao lado também tem lá suas dores e suas emoções negativas.

 

Todos nós, humanos, as temos.

 

E se alguém quiser se livrar disso, torne-se algo que não seja humano.

 

De perto, na vida real, nós todos possuímos dificuldades. Dizem que de perto, ninguém é normal. Aqui ou ali, nossas neuroses se mostram, se revelam.

 

Em sua casa, no seu próprio mundo, no seu interior, em sua alma, dá para construir um lugar bonito.

 

É possível dar uma nova cor aos seus pensamentos, dar um novo significado às suas antigas dores, rever suas queixas atuais.

 

A vida do outro será melhor que a sua se você focar sua atenção na vida do outro.

 

Mas se você conseguir dar um novo fôlego à sua casa, um novo cuidado (do ponto de vista mais amplo possível), você poderá compreender que sua casa pode ser bela, agradável e verdadeiramente acolhedora.

 

E melhor que isso, desconstruir o mito de que o outro vive melhor que você é um bom começo para escrever você mesmo e para você, uma nova história de amor, beleza e paz.

 

 

Superstição

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Conheço uma música boa de cantar do compositor brasileiro João Gilberto que diz assim: “Vivo esperando e procurando um trevo no meu jardim / Quatro folhinhas nascidas ao léo / me levariam pertinho do céu /feliz eu seria / e o trevo faria / que ela voltasse para mim. / Vivo esperando e procurando um trevo no meu jardim.”

Parece música de criança e realmente só uma criança para acreditar que um trevo de quatro folhas, mesmo raro e interessante, teria o poder de me trazer quem amo de volta.

Você fica feliz quando encontra um trevo de quatro folhas?

Você evita passar debaixo de escadas?

Você coloca sua cueca da sorte quando seu time vai jogar?

Fica temeroso quando vê um gato preto?

Evita pisar no chão com o pé esquerdo quando acorda ou faz o possível para entrar com o pé direito nos ambientes nos quais você entende que precisa de boa sorte?

Passar o réveillon usando a cor branca em todas as peças de roupas?

Você acredita que colocar um elefante de costas para a rua em sua casa ou trabalho atrai dinheiro e prosperidade?

Você acredita que precisa limpar toda a sua casa e afastar os maus espíritos se alguém, ainda que pertença à sua família, acaba de sair dela?

Então provavelmente você é supersticioso.

O superticioso obedece a todas essas regrinhas e muito mais.

As pessoas se cercam de todos os modos, de amparos e certezas, para apaziguarem suas inseguranças em relação ao seu destino.

Desde que nascemos, o medo do desamparo é presente na vida humana.

Carregamos em nossa essência uma certa sensação de vulnerabilidade.

Temos crendices de sobra e parece que nossa saúde emocional está amarrada a um monte de crenças em que nos apegamos como crianças inocentes que não conseguem discernir a realidade do mito, a verdade do imaginário.

Para Manoel Thomaz Carneiro “Chegamos ao mundo com uma “Estrutura Psicológica” que não nos habilita a darmos conta sozinhos da vida. Por isso desde que nascemos precisamos de olhos que nos acolham, que adivinhem as nossas necessidades. A sensação de confiança em si mesma, como pessoa, é desenvolvida a medida que os nossos “protetores” nos incentivam primeiro diante dos olhos deles a experimentarmos as ações independentes. Os cuidados que recebemos vão sendo internalizados gradualmente como sensação de amparo, que amortizam as nossas inseguranças, de modo que possamos de certa forma viver com medos mais apaziguados.”

Se a criança é educada com a maior segurança possível por parte dos pais ou cuidadores e ela aprende a confiar em si mesma, ela vai aprendendo a ser cada vez mais livre de pensamentos negativos, escravizadores e ou limitadores de sua liberdade.

Paulo Freire, educador brasileiro, dizia que nossa vida não é escrita de determinismos, mas de possibilidades. Isso significa que podemos construir nossa história do jeito que quisermos e que nosso caminho, nossa vida, pode ser escrita diariamente, da melhor forma possível.

Autoridade x Autoritarismo

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Hoje eu tive a felicidade triste (se é que isso é possível) de conversar um pouco com uma pessoa daqui de Jequié que tem uma história incrível ligada àqueles tempos de ditadura. Não citarei seu nome por uma questão de ética, mas ele é uma memória viva dos desmandos e prejuízos (daí minha tristeza) implantados no Brasil há 50 anos.

Humana que sou, fiquei emocionada ao ouvir suas histórias, alguns relatos, coisas que sangram e até hoje, de alguma forma, marcam até as atuais gerações em seu comportamento, no seu jeito de ver e compreender a realidade, dentre outras influências. No livro Brasil Nunca Mais, temos alguns exemplos da quão desumana foi aquela experiência.

A sociedade brasileira reagiu tão fortemente aos horrores daquele tempo que, na tentativa de expurgar de uma vez por todas qualquer tipo de autoritarismo que lembrasse aqueles dias, acabou se atropelando entre conceitos de autoridade e autoritarismo (coisas muito diferentes uma da outra) e, ficamos assim: temos medo de exceder em força na criação de nossos filhos e nos tornamos pais e mães extremamente permissivos, com medo de dizer não, de definir limites, de nos posicionarmos como adultos que somos na relação entre pais e filhos.

Extremos sempre foram muito perigosos.

Oscilando entre gritar e conversar, entre dar ordens e dialogar, entre respeitar nossas próprias convicções e ceder às primeiras birras de nossos pequenos, nos tornamos pais infantis, com sérias dúvidas sobre quais decisões tomar a respeito deles, enquanto ainda estão conosco e/ou enquanto não podem tomar conta de seus  próprios narizes.

Somos pais inseguros, permissivos e temos medo de falar aos nossos filhos o que pensamos, nossos posicionamentos. Já vi pais que tem medo de errar, pois tem pavor de que seus filhos descubram suas fragilidades.

Entendo que uma das cicatrizes que temos como sociedade, fruto de 64, é que fazemos uma tremenda confusão entre democracia e autoritarismo, a ponto de compreendermos que democracia é apenas falar o que se quer falar.  E democracia não é somente isso.

Mas se fôssemos classificar o principal trauma do golpe em nossas atuais gerações, talvez seja exatamente este: o de confundirmos, em nosso senso comum, autoridade com autoritarismo, numa tentativa quase inconsciente de expulsar de nosso meio este último.

Crianças superpoderosas e pais fragilizados. Crianças que tudo podem sem ainda sequer terem o poder apropriado de discernimento sobre o que seria a melhor ou a pior decisão para suas ações.

Nossa sociedade ainda geme as dores (inconscientes) de um tempo que não se pode esquecer.

 

 

Relacionamento Leve

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De alguma forma, estamos todos ligados uns aos outros.

O padeiro faz o pão que eu gosto. O jornaleiro, entrega o jornal que leio.

Posso não conhecer o padeiro ou o jornaleiro, pois embora me sirvam, não tenho uma relação pessoal com nenhum deles.

Mas ao meu lado, diariamente, eu tenho pessoas com quem converso, troco experiências, compartilho algumas dores e alegrias.

Além dessas pessoas que estão um pouco mais próximas, tenho também outros mais achegados.

Pessoas são espelhos de mim. Eu as trata como me vejo. Alem de elas me darem muito retorno sobre quem sou. Se as trato mal, elas me tratarão um pouco mais frias. Se lhes dou meu sorriso, certamente terei um sorriso de volta.

A bolinha da vida volta sempre com a mesma intensidade com que a jogo adiante. Se a jogo com agressão, me devolvem agressão. Se a jogo com amor, recebo amor.

Claro que a regra não funciona todas as vezes assim, mas de um modo geral, tenho sempre o retorno do que sou.

Se gosto de você, é provável que vá  gostar de mim. Se lhe trato bem, você vai me tratar bem. Gentileza gera gentileza, já dizia o poeta carioca.

E no mundo tem um lugar especial para pessoas doadoras e gentis.

Em nossas relações interpessoais, quando somos bondosos uns com os outros, quando somos compreensivos e acolhedores, a tendência é que recebamos de volta bondade, compreensão e acolhimento.

É, como dizia Rubem Alves, um agradável jogo de frescobol. Eu lhe jogo uma bola para que você possa devolvê-la para mim do mesmo jeito, alegre e divertido.

Jogamos os dois para ganhar.

Eu quero que você ganhe e você quer que eu ganhe.

Sem competições, sem conflitos desnecessários.

Assim, em nossas relações entre pessoas, ganhemos todos.

 

 

 

 

Violência no Trânsito

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Eu me lembro de Pateta, um antigo desenho animado…

Ele acordava docilmente, cantarolava, falava com os vizinhos, estava feliz e satisfeito, um modelo de ser humano, sensível e bem educado.

Até entrar em seu carro. Ali, ele mudava de nome. Virava quase um monstro. Franzia as sobrancelhas, fazia cara de zangado e saia pelo trânsito, brigando com todos. Insulta um, irrita outro, corta um veículo, desrespeita o pedestre.

Seu comportamento que, há pouco, era excelente, se transforma agora em alguma coisa desumana, violenta, agressiva. Para ele, o veículo era instrumento de força e vaidade.

No desenho animado é até engraçado ver o Pateta daquele jeito. Mas, na vida real…

Bem, na vida real a gente vai vendo as violências de cada dia.

Atravessar uma rua não é fácil se você é um pedestre, por exemplo.

Parece não haver qualquer educação no trânsito e, frequentemente, imaginamos que estamos numa selva cheia de perigos.

Motociclistas e motoristas, ciclistas e até os transeuntes realmente precisam repensar seu papel para o bom andamento do trânsito.

Como o Sr. Pateta, perdemos nossa educação. Somos tensos, irritados.

Qualquer motivo é razão de não darmos passagem ou preferência, como se estivéssemos todos competindo uns com os outros.

Daí, todo mundo quer provar que é mais forte, maior, melhor, mais rápido… Como se estivéssemos todos numa grande competição, embora ninguém nunca saia ganhando, de nenhuma forma, quando o assunto é violência no trânsito. Ou qualquer outro tipo de violência.

Outro dia todos nós vimos, tristes, a morte de dois irmãos que foram atropelados por uma médica em Salvador.

Infelizmente duas vidas foram ceifadas naquele infeliz episódio. Além das famílias de todos os envolvidos na tragédia viverem tamanha tristeza.

Fico me perguntando se qualquer um de nós não poderia estar comprometido num caso assim, visto que muitas vezes  nos transformamos no trânsito e revelamos, nele, todo o nosso medo, nosso estresse, nossa insegurança.

Lutar e fugir, esse mecanismo de defesa tão necessário chamado estresse, pode se acentuar de uma forma tão intensa a ponto de gerar uma extrema violência no trânsito, por exemplo. De gerar em nós um estado de hipervigilância que pode nos transformar em gente que não consegue gerenciar suas próprias emoções.

Nosso meio de transporte, antes instrumento de conforto que nos beneficiava e nos levava e trazia para onde quiséssemos, vira uma verdadeira arma se o nosso coração estiver estressado, com medo  e sem paz.

É certo que a condução para a paz e a segurança não depende só de uma pessoa. Depende de todos os envolvidos, de todos os que estão no trânsito, incluindo aí pessoas e ciclistas. Ou seja: depende de nós mesmos, da cada um de nós.

No caso do Pateta, a história é feita em desenho animado e é algo divertido. Na vida real, não. No dia a dia, nosso trânsito mata mais pessoas que  guerra, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Estamos hipervigilantes, estressados, ansiosos, inseguros, com medo, zangados no trânsito.

Brigas e discussões são muito comuns na rua e parece que todos, de uma vez só, nos tornamos pessoas frias e vingativas, desejando o mal dos outros, esperando vingança para aquele que nos ‘cortou’, que nos desrespeitou, que avançou o sinal.

E, sem querer, também viramos instrumento desse grande mal.

Nosso trânsito é violento e enquanto não criarmos a consciência de que podemos fazer algo diferente, dirigir sem concorrência, sem imaginar que estamos numa arena e salve-se quem puder, dirigir com a responsabilidade de que tanto nós quanto os outros também tem pressa, estão atrasados.

Se for possível, quando estivermos no trânsito, tentemos cantarolar, ouvir uma música. Tentemos nos acalmar, ceder lugar, dar a preferência ao outro, dar passagem às pessoas.

Num possível engarrafamento, aproveitemos para  fazer um alongamento.

Evitemos buzinar, respiremos. Resgatemos nossa paciência. Sejamos tolerantes.

Busquemos compreender os erros dos outros. Afinal de contas, nós também erramos.

No trânsito bondade, tolerância e solidariedade são sempre o melhor remédio. E, repetir a história do Sr. Pateta, nunca mais.

Resiliência e Enchente de 1914

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(Fonte: http://tabernadahistoriavc.com.br/a-enchente-de-1914-e-a-chicago-baiana/)

Dizem os estudiosos que resiliência é a capacidade de reagir às agressões da existência.

É saber resistir às dores e perdas de um jeito criativo que lhe proporcione retomar a vida, dando a ela uma nova condição, um novo sentido.

E podemos ser resilientes quando vivemos uma situação potencialmente traumatizante. Uma dor, uma perda.

Penso nas inúmeras perdas e traumas vividos pela população jequieense na enchente de 14.

Há cem anos vivemos a maior catástrofe ambiental que destruiu cenário, frustrou famílias, entristeceu o coração de muita gente que viu morrer seus entes queridos, viu também suas coisas, móveis, imóveis, todos destruídos pela força avassaladora da água.

E agora? Como sobreviver à tão grande perda?

É basicamente esta a pergunta que fazemos quando algo rompe nossa rotina, quando a vida nos assalta com suas surpresas.

Se as novidades são boas, viva! Ainda assim, precisamos de um tempo para nos acostumar, para aprender a lidar com o novo.

No caso em questão, a enchente de 14, precisamos de muita resiliência. Precisamos reagir às agressões externas e, como cidade, perder sem se perder.

Comumente você sai de um obstáculo mais fortalecido. Mais corajoso. Você checa a sua força. Você aprende a resistir a este ou àquele trauma, lidando com ele de um novo jeito, com uma nova compreensão.

Elaboramos nossas dificuldades na vivência conosco mesmos e em companhia dos demais.

É no diálogo, no contar a sua dor, que você organiza melhor as ideias e, ao contrário de voltar a ser o que era antes, você dá um passo além de si mesmo. Cria uma nova realidade e enfrenta a vida de um novo jeito.

De forma criativa e enriquecedora, para dentro e para fora, para o eu-si-mesmo e para nossa querida Jequié, nossos antepassados conseguiram se refazer, reconstruir esse lugar amável e caloroso que se chama Jequié.

Superamos além da enchente de 14 muitas outras perdas e ganhamos com as dificuldades uma certa sabedoria para seguir, para não desistir e para criativamente levantar a cabeça e “dar a volta por cima”.

Chamo isso de força. Chamo isso de coragem e resiliência.

Devolvo de coração, à minha querida Jequié, meu amor incondicional de quem reconhece que aqui está meu primeiro espaço de possibilidades, assim como foi aqui que nossos queridos antepassados se refizeram, reconstruíram seus bens e se fortaleceram como pessoas humanas. Aqui eles elaboraram seus lutos e suas perdas.

É aqui que eu aprendo a ser gente. É aqui onde leio a minha própria história e me reconheço como capaz de, criativamente, como fizeram os antigos, tecer nossa vida com coragem e resiliência.

Viva Jequié!!!!

 

 

 

Endereço do Coração

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Pouca gente entendeu o que levou Mandela,  o tão querido e famoso líder africano, a desejar ser enterrado em Qunu.

Qunu é uma pequena aldeia com aproximadamente 200 habitantes que fica situada na província do Cabo, na zona rural do sudeste da África do Sul.

Observe que Qunu não foi o lugar onde ele tinha nascido, mas era o lugar de sua infância.

Dizem que foi ali que ele aprendeu as primeiras letras. Provavelmente ele reconhecia que ali fora o primeiro lugar de suas possibilidades, de seus primeiros amiguinhos, de sua vivência infantil mais significativa.

Qualquer estudioso sabe que aos sete anos de idade você está praticamente fechando sua personalidade.

O pequeno Mandelinha certamente ainda não tinha muita noção do quanto seria conhecido mundialmente, mas já sabia que ali, em Qunu, onde se percebeu gente pela primeira vez, seria seu lugar para sempre.

Ainda que ele conhecesse muitos outros lugares no mundo, aquela pequena aldeia seria sua principal referência de humanidade. E, ali, ele desejaria repousar.

Talvez o mesmo sentimento do Mandela tenha visitado nosso querido Fernando Pessoa, o poeta português, enquanto escrevia sobre o riozinho da sua aldeia.

Entendo que Fernando quase lacrimeja escrevendo:

“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia…

O Tejo desce de Espanha   

E entra no mar em Portugal.

Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia

E para onde ele vai

E donde ele vem.”

O que o poeta afirma é que embora o Tejo seja um rio famoso e belo que percorra grandes países da Europa, seu riozinho talvez seja a coisa mais importante e mais belo que ele conhecia.

Era o seu rio, o rio de sua referência, de suas histórias infantis, de suas simbolizações mais significativas.

Temos também a tão conhecida Canção do exílio, do escritor Gonçalves Dias. Ele nos encanta com sua saudade assim:

“Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.

Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem que ainda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Esse poema tem cheiro, marca e tom de saudade. De saudade de um lugar extremamente importante para o poeta. Era para lá que Gonçalves Dias desejava voltar.

E enquanto falamos de todas essas pessoas importantes, eu me lembro de um outro choro, de uma outra declaração de amor por sua terra, quando o nordestino maltratado pela seca abre sua queixosa sanfona e alardeia pelos quatro cantos que só deixaria o seu “Cariri no último pau de arara.”

O amor ao seu lugar era cantado mais ou menos assim:

“A vida aqui só é ruim quando não chove no chão

Mas se chover dá de tudo –  fartura tem de montão

Tomara que chova logo! Tomara, meu Deus,  tomara!

Só deixo o meu cariri no último pau-de-arara.”

Cariri era seu lugar, era seu chão. O local conhecido por ele. Onde ele também vivia todas as suas possibilidades. Suas dores, suas alegrias, suas histórias.  Pau de arara era um tipo de caminhão para viagens longas de população de baixa renda. Nela uma tora central era usada para amarrar as redes para dormir. E era desse jeito que o nordestino deixava seu cantinho, sua pobre casinha, para tentar a vida lá fora, provavelmente em São Paulo, na esperança de “melhorar” a vida, de poder beber água fresca, de ter uma nova chance, de prosperar.

Independente de alguns terem conseguido êxito pelas terras de lá, saudade era lugar comum em suas falas, em seus sotaques de gente da terra: um dia eu volto para meu lugar.

A terra da gente é o lugar de nossa segurança, onde temos o sentimento de que estamos seguros e de que nada ou nenhuma agressão externa nos afetará.

A terra da gente é uma das principais referências que fazemos, inconscientemente, do útero de nossa mãe.

A terra da gente é, talvez, a representação mais fidedigna de nossa própria mãe.

E provavelmente por isso, tantos de nós, quando estando longe, queiramos retornar.

É para um lugar de origem, de segurança, de descanso, de proteção, de alimento e paz que o homem, a mulher ou a criança irão, sempre, desejar voltar.


Saudade

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Final de ano chegando e a gente fica pensando em um monte de coisa que passou, no que deixou para trás.

O tempo, o ano, as experiências boas ou ruins… Tantas emoções vividas, confirmando mais uma vez que, de fato, somos mais emocionais do que racionais.

O ser humano vai se vinculando à coisas e pessoas que lhe trazem alegria e, quando vê, já está atrelado, já está ligado de alguma forma. É como se pensássemos de forma organizada na mente que sem o outro eu não consigo seguir ou minha vida deixa de ser alegre.

Desde o Gêneses, está registrado que não é bom que o homem esteja só. A solidão vem sendo tema comum e deixa marcas em nossa existência.

Inevitavelmente estamos dizendo adeus a algo ou a alguém. Frequentemente a ideia de levar um tempo sem contato com o outro ou passar muito tempo sem encontrá-lo move o coração do homem e da mulher a um tipo de sentimento muito comum, muito humano, chamado saudade.

Dizem que a saudade é o mais humano dos sentimentos.

O compositor brasileiro João Donato nos dá um exemplo de como fica nosso coração quando o inevitável adeus ocorre:

“Você entrou no trem / E eu na estação / Vendo um céu fugir / Também não dava mais / Para tentar lhe convencer de não partir… / E agora, tudo bem / Você partiu para ver outras paisagens / E o meu coração embora / Finja fazer mil viagens / Fica batendo parado naquela estação….”

Donato relata a sensação de quem fica, com o coração ainda vivo, batendo, mas como se estivesse parado de tristeza e saudade ao saber que o ser amado já não está por perto e, por vontade própria, foi embora.

Rubem Alves diz que “saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar”. É como se toda a nossa emoção dissesse: eu poderia vender tudo o que tenho pois encontrei uma pedra preciosa e a quero para mim, como diz a história bíblica.

Tom Jobim e Vinícius de Moraes , na música Chega de Saudade, implora: “Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser / Diz-lhe numa prece / Que ela regresse porque eu não posso mais sofrer / Chega de saudade  /A realidade é que sem ela não há paz / Não há beleza / É só tristeza e a melancolia / Que não sai de mim, não sai de mim, não sai…”

Inúmeros artistas e pessoas comuns tentam, a seu modo, sobreviver a uma despedida. Lidar com a dor do adeus. Mesmo que esse adeus seja provisório ou definitivo.

Pessoas comuns, em todas as partes do mundo, quando vivem o momento da despedida sofrem a seu modo, cada qual com a bagagem emocional que recebeu de berço, que aprendeu, de alguma forma, com sua família ou com pessoas de seu convívio social.

Na canção intitulada “Um Lugar Vago na Mesa” o compositor cristão Gerson Borges retrata o sofrimento de um pai amoroso que, longe de seu filho, sofre a saudade de quem ama intensamente. O pai pede:

“Abra a janela pra mim, deixe esse pedaço amarelo / de tarde entrar,  antes que a noite me arraste, que a noite me afaste pra outro lugar, antes que o sono me falte, e a solidão me assalte. / Onde meu filho andará? Será que ele estará outra vez junto a mim?

Meu coração é de pai, meu coração não é pedra, é carne, é dor.  / Meu coração chora a ausência do filho querido que me abandonou. / Há um lugar vago na mesa que aumenta minha tristeza.  Onde meu filho andará?  Será que ele estará outra vez junto a mim?”

Parece que o maior desejo do coração humano seria o reencontro. Ver de novo aquela pessoa querida que há muito não vemos.

E isso se estende a lugares, coisas, tempos. Quem não sente saudade do cafezinho cm leite feito pela mãe à tardinha?

Quem não sente saudades daquela comidinha caseira? Outrora tão comum, tão humilde, mas qualquer sinal, qualquer cheiro que a relembre, nos traz uma dor, uma gostosa lembrança, talvez até um aperto no coração. E, sim, o que você está sentindo agora pode ser uma doce e inesquecível saudade do temperinho da mamãe.

Joel Birman, Psicoterapeuta brasileiro nos anima pontuando que  saudade pode até ser triste, mas é um sentimento positivo, que estimula a memória e a sensibilidade. Ele argumenta que “não dá para viver sem saudade. A saudade é inspiradora, criativa. Não podemos pensar que a saudade é um sentimento do mal. O sentimento complicado é a perda que vira depressão, melancolia, drama. Há uma dimensão alegre na saudade.”

Ainda para Birman: “Não dá para viver sem saudade. A saudade é inspiradora, criativa. Não podemos pensar que a saudade é um sentimento do mal. O sentimento complicado é a perda que vira depressão, melancolia, drama. Há uma dimensão alegre na saudade”,

Embora o afastamento de quem amamos possa provocar tristeza, nostalgia e angústia, geralmente quando matamos a saudade sentimos alegria. O reencontro é algo que afaga nossa alma e nos acolhe com alegria.

O sentimento e a possibilidade do reencontro tem o poder de nos trazer esperança e de reanimar nossa alma.

Podemos matar a saudade de várias formas. Revivendo na memória momentos alegres,  revendo fotos ou vídeos antigos, conversando sobre o assunto ou reencontrando a pessoa querida. Podemos revisitar lugares queridos.

Saudade não é só sentimento que dói. Posso usá-la como inspiração, como um motivo para prosseguir. De alguma forma, esse sentimento pode vir a meu favor para que eu crie uma doce e corajosa vontade de seguir. Depende do jeito que interpreto meu próprio sentimento.

 

E você? Do que tem saudade?

 

 

 

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